quarta-feira, 8 de março de 2017

Miragem inconsistente 


Bruta pele irradia imagens
Miragens insustentadas pelo tempo 
O avesso movimento do vento nos cabelos
Reinventa, fugaz, nossos momentos 

Sedenta do toque voraz
Que o encontro das bocas traz
Voluptuosa paz que se desfez 
Lentamente no infortúnio peso do agora

Imagens inconsistentes são retratadas
Nas lacunas cruas aquém da realidade
Me invade em intromissões recorrentes
Não te vejo além do antigamente   

Havia muros e portas no entorno
Optaste por muros em todo o jardim
Portas fechadas negavam a fragilidade
Do medo de o amor ter fim

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Liberdade


Liberdade é não esperar do outro
Um pedaço de giz de cera 
Para colorir a óptica da retina do teu olho 

Acima das nuvens tem que cor
Além das nuances que podes ver
Com seu estado de humor?

Nos dias de céu acinzentado
O olho tem subjetividade no cenário
Da luz do teu dia 

Quiça a primavera te oferte flores coloridas
Mas é a ela condicionada a voz
Que proclama tua alegria?

O verão traz um sol de tom amarelo
Aquece seu corpo, mas cabe a ele 
A esperança que nutre no que é belo? 

As folhas do outono de tons variados
Acompanham o vento que acaricia seu rosto
Dança e faz seus ruídos no ar, isto pode te tranquilizar? 

Liberdade é pertencer a si mesmo
Antes de atribuir à chuva, ao cinza e ao frio
A responsabilidade pela constância do vazio.    

domingo, 22 de janeiro de 2017

Constructo da espontaneidade



De manhã poesia acinzentada 
Me ocorria vagarosa
Foi interditada pela prosa interna
Dos grilos ativos que vivem na caixola

Essa danada mania de sofrer antecipadamente
Rasga o peito e costura quando quer, tão lentamente
Que a fadiga mental escapa desse cômodo 
E vai ao quintal de sonhos deitar-se na rede 

Existir é obra inigualável da singularidade
Conduzir a vida como manobrista articulado
Ou ser desses cabras desajeitados que colidem no primeiro muro
É chulo recusar-se a enfrentar os leões de si mesmo

O espelho traz possibilidades: 
Olhar para a realidade ou só ver um pesadelo
Desses de filmes de terror, no qual só se grita e fecha os olhos
Esse torpor de atitude não permite recuos tampouco esconderijo

Acalente teu peito nos abrigos do caminho
Aceite o carinho do vento te tocar o cabelo, o rosto, os medos
Toda sua pele vibra com mais um despertar de possibilidades
O livro da vida é dividido em capítulos, escritos por partes.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Interrupção 



Nos braços da profundidade 
Caminhara em passos lentos
No deleite de olhares ternos
E do afago do vento 

Assobiou canções escolhidas 
Da trilha sonora onde constrói a vida
Num torpor na retina de seus olhos 
Frigidos olhares tóxicos 

Recolhera fragmentos miúdos 
Das peças de seu coração desmontado 
Atingiu o ápice do amor inalcançável 
Num gozo dilacerado em si. 

Ofuscada 


Pintei teus olhos com giz de cera 
Clareou meu mundo com intensidade 
Num beijo raso me escapa fina pele 

Entre os dedos, célebre se esvai 
Pela ladeira do meu coração consome 
A ausência de toque é devaneio Inóspito 

O mundo subtrai suas cores 
Gradualmente se desfaz silenciosa 
As mãos viçosas no enlace estão em direção oposta

O sopro do vento aposta 
No desenrolar dos dias
Uma pintura na tela branca brinda o ato de recomeçar. 

sábado, 24 de setembro de 2016

Menina

Sedenta de amor, menina
De olhos cor de brilho na retina
Percorria ruas escuras de si mesma

Com a tranquilidade inexistente
Nessa gente que remexe em arquivos internos
E evocam porções de medo de todos os lados

Ouvinte de canções saudosas
O peito inflamava um choro sutil
Contido em palavras não verbalizadas

Relacionamentos, ela via com ávida paixão
De sofrimento antecipado era temerosa
Via no presente um filtro de possibilidades novas

Reinventar conceitos era motivo de curiosidade
Menina inquieta e descontente com aquilo
Que para ela era estática realidade

De sonhos pouco se recordava
De atos era toda desajeitada
Mas não hesitava em desbravar em amplitude

Amiúde diziam-lhe que não existiam novidades
O calendário comprovava a morosidade
Triunfante do administrador soberano, o Tempo

Tampouco concedia ouvidos àqueles
Que com desdém riam de seus tropeços
Mas ouvia o som advindo do estralar de seus joelhos

Menina revolucionária de si
A contragosto destrancou o peito e lançou o cadeado:
Antes de qualquer previsibilidade, é preciso permitir-se sentir! 

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Aquarela da despedida

Ela me fita com olhos fixos
Um brilho cinza de intensidade transborda 
Contida na musculatura enrijecida

A aura vermelha do encontro 
De olhares que se acariciam 
Em uma dança individual 

Sucumbe ao negro 
Das tormentas do passado
E temores de um futuro desleal 

O azul escuro da blusa dela 
Desperta perguntas não verbalizadas
A paz que existiu foi desmoronada?

As paredes brancas da sala negligenciaram 
O encontro não verbal, contido pela distância
Dos corpos num estupor proposital

Outrora o silêncio azul turquesa 
Fora um deleite compartilhado 
Uma dádiva de intimidade comemorada

A violeta radiante do entrelaçar das mãos   
Era gesto automático do encontro consumado
Reflexo da sintonia mental, plena conexão

O toque dos corpos 
Transpunha sensações táteis 
Era vivida a cor púrpura dos beijos e enlaces 

Naquele dia gris, um abraço foi provocado 
Em meio ao vazio esmorecido
Em um tom desbotado de despedida forçada. 

18/8/2016 - Dedicado ao amor que se desviou do caminho tão precocemente.