segunda-feira, 2 de abril de 2018

Encomenda


Meu coração sem freios
Apertou o gatilho e disparou
Profundidades estraçalhadas
O vento dissipou 

A entrega atrasou 
Foi desvio de rota 
E a embalagem veio 
Sem nota fiscal 

Clandestina encomenda
Sorria sorrateira 
Com laço de fita 
Boca vermelha incontida

De beijos efêmeros 
Puxou-me a cintura 
Lisura de ausência 
Do som das palavras

Nada verbalizava 
Que não fosse entrelinhas 
Esticou os braços em linha reta
Nada do que fizera fora se perpetuar  

E numa dança envolvente
Lançou olhares intensos 
E meramente rasos
Deu de ombros e desapareceu no acaso

Desbravar

terça-feira, 6 de março de 2018

Desbravar


Quando desbravo o mundo
Também desbravo a mim
Desbravar é arrancar o velho conjunto 
De conceitos enraizados no peito
E agregar o desconhecido recém chegado 

O novo da sombra 
Personificado e inacessível
Reluz e convida a adentrar
Um universo de expansão 
E imersão cultural lá fora e cá dentro

Desbravar é rasgar o peito
Aberto à imprevisibilidade
Tal como é a vida 
E sua falta de conectividade 
Com o falso e ilusório controle 

Olho para fora e desperto
Atenta às partes fragmentadas de mim
Integro olhares, cheiros, lugares
E memórias que refazem 
Um aspecto da minha história

Escrevo e me reconheço no agora
Neste avesso de partes tão limitadas de mim
Me ponho frente a um espelho de reciprocidade 
Com a mulher que fui, a mulher que estou 
E aquela metamorfose que está por vir. 

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Derramada 

Me derramei
Deturpada para o mundo
Numa carcaça embrutecida
Escondia as doçuras pueris
Do meu sorriso

Com a voz baixa
E movimentos lineares
Resguardei momentos 
Revivi lugares novos
Dentro de mim

Me fiz profunda 
Em superfícies rasas
E no mar revolto
Me permiti demonstrar
Fui tão claramente amor

Multifacetada de frases e verbos
Regava folhas e desejava flores
Colhi girassóis aonde só havia rumores
Do fruto nutri espaços 
E deslanchei com vigor

Me derramava em versos
Feito prosa, poesia e rima
Deslanchava em palavras no papel
Ao passo que desaguava imensidão 
Substanciada em um mar de mim.   

domingo, 29 de outubro de 2017

Encaixes

Ela conta com a sorte
Que forte menina 
Do cabelo esvoaçante
Usa laço de fita e filtra seus medos

Com um sorriso de boca vermelha
Se espelha em tudo que tem luz 
Conduz seus passos com cuidado
De acasos sorri e desacredita 

Não induz o outro às suas crenças
Contempla a diferença 
Que enriquece a troca entre mundos
Se desnuda de pesos irrelevantes

Seu olhar adiante está atento ao agora
Nada implora e libera fluxos estagnados
Menina aprendiz, que jeito engraçado
De dançar sem ritmos pré-determinados

Que coragem de existir em liberdade
Sem a prisão de vaidades projetadas
Ela se lança em verdades mutáveis
E agrega companhias de qualidades admiráveis

Faz da fala aprendizado 
E da escuta atenta, um cuidado
Com o universo paralelo 
Que a comunicação lhe apresenta

Menina curiosa, não se contenta com a rotina
Desbrava tudo que traz cores à sua retina 
E desfruta com intensidade a leveza 
Dos sabores da vida.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Vai, menina

Cantarola, menina 
Cantigas do tempo de escola

Sapateia, menina
Seus passos ao que a rodeia

Sorri, menina
Ao mundo que lhe observa 

Se refaz, menina
Diante dos pedaços de que é parte

Vive a arte, menina
Pra dar um rumo na sorte desses trilhos

Trilha caminhos amplos, menina
Que a vida não prospera na indecisão

Estende os braços, menina
E voa na liberdade plena

De ser passarinho livre, menina
Que a liberdade é inspiração que te conduz 

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Processo

Eu, inteiro
Interino de mim
Missionário das partes fragmentadas 
Nas quais afogado permaneci


Sumerso em sensações efêmeras
Paixões de veraneios vívidos
Lutos diversos dos quais fui acometido
No meu crime de rasgar o peito
E me inundar no avesso dos receios

Nos braços que os devaneios me levaram a sentir
Eu, metade descoberta e desnuda
Metade plena e fecunda flor de mim
Eu que me refiz inteiro em dias incontáveis

Na ânsia de existir para mim
Na coerência de mergulhar sem pudores
No mar imenso que é se permitir
Machucar, sangrar, arder, esbravejar
Que o meu peito inflama amor sem amarras

Liberdade sem mordaças no corpo e na alma
Construtividade entrelaçada em lágrimas
De quem precisa se refazer sem o fel e as delongas
Se aquele que fui me assombra

Frente às novas possibilidades
De me reinventar
Resta o espectro imprevisível
Que requer cuidados
Para não padecer no cansaço que é se frutificar.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Toda mulher é uma estrela

Toda mulher é uma estrela 
De pele branca, negra ou amarela
De boca vermelha ou natural
De riso largo e estatura baixa
De porte alto, mulher sem igual

Toda mulher é uma estrela
Que brilha plena e singular
Mulher de amores que transmutam
Mutantes são teus passos
Desconstruída, mulher de liberdade e anseio de vida!

Toda mulher é uma estrela
Lisa ou cacheada
Discreta ou gargalhada
Que conquista seu espaço
Com brabeza ou doçura nos lábios

Toda mulher é uma estrela
Em construção diária de si
Mulher questionadora em transe
De possibilidades múltiplas
De viver ou existir.